A complicada relação entre o amor e o poder
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Hermes C. Fernandes
“O poder sem amor é imprudente e abusivo”.
Martin Luther King Jr.
Vivemos em um mundo que serve de cenário para disputas de poder. Todos almejam a supremacia. Querem ser reconhecidos, respeitados e obedecidos. É a lei do mais forte.
Filhos assistem a seus pais se digladiando, para ver quem de fato manda na relação. Países ricos se acham no direito de ditar diretrizes políticas aos países subdesenvolvidos.
Poder e amor parecem realidades excludentes.
O fato é que, se não quisermos cair numa anarquia, precisamos estabelecer hierarquias. Entretanto, o poder não deve ter primazia sobre o amor. Não podemos conformar-nos ao espírito deste mundo. Amar é caminhar na contramão deste espírito.
Mateus nos informa que a mãe de dois dos discípulos de Jesus resolveu fazer um lobby por eles, para garantir-lhes um espaço reservado à direita e à esquerda do Trono de Cristo em Seu Reino. Sem dúvida, houve um mal-estar entre os discípulos. Pelo que tudo indica, todos almejavam um lugar de destaque no Reino de Deus. Pelo que Jesus lhes respondeu: “Bem sabeis que os governadores dos gentios os dominam e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós. Pelo contrário, todo aquele que, entre vós, quiser tornar-se grande, seja vosso servo”.[1] Repare que em momento algum Jesus questionou a legitimidade das autoridades exercidas no mundo. O que Jesus fez foi lançar uma nova luz acerca de suas atribuições. Elas não foram instituídas para se servirem das pessoas, e sim, para servi-las.
Jamais foi plano de Deus que o homem vivesse em uma sociedade anárquica. Por isso, a recomendação apostólica é que “toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores, pois não há autoridade que não venha de Deus. As autoridades que há foram ordenadas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus”.[2]
Deus concede às autoridades o direito de exercer juízo[3], de estabelecer leis, de receber tributos,[4] mas não lhes concede o direito de exercer domínio a seu bel-prazer.
Todo poder que procura dominar é contrário ao espírito do Amor. “Amar é renunciar o poder que domina, para abraçar o poder que liberta e promove a vida [...] O poder domina e inibe. O amor liberta e torna as pessoas criativas”.[5]
Deus estabeleceu a autoridade do Estado sobre seus cidadãos, do patrão sobre seus empregados, do marido sobre sua esposa, dos pais sobre os filhos, do pastor sobre o rebanho, do bispo sobre os pastores, e assim por diante. Mas essa autoridade visa promover a ordem e o serviço motivados pelo amor.
Autoridade não deve ser imposta, mas proposta, exposta e disposta. Isto é: em vez de se valer de coação para se impor, ela deve ser proposta, imbuída de propósitos definidos; exposta à avaliação, e disposta a servir e a mudar quando necessário.
Muitos se escondem por trás de uma fachada autoritária e dominadora. Acham que podem compensar sua carência de amor através do exercício do poder. É frustrante e revoltante ver alguém tentando dominar a outros para compensar seu sentimento de inferioridade e mesquinhez.
Para exercer qualquer autoridade, é necessário que a pessoa esteja bem resolvida, e disposta a assumir as atribuições de servo daqueles que lhe se submetem.
Não é preciso humilhar ninguém, nem tentar apagar a luz dos outros, para que a nossa luz resplandeça.
O Governo é servo do povo que o elegeu; o marido é servo da mulher a quem desposou; os pais são servos dos filhos que geraram; o pastor é servo do rebanho por quem Cristo deu a vida.
A regra é simples: só podemos servir a quem a amamos.
Muitas vezes a Bíblia tem sido criticada como um livro ultrapassado e machista. Não soa bem pedir que as mulheres sejam submissas a seus maridos. Mas o fato é que as esposas não são as únicas a receberem tal encargo. Na verdade, sobra pra todo mundo!
Paulo diz que se quisermos ser cheios do Espírito Santo, teremos que sujeitar-nos uns aos outros no temor de Cristo.[6] Os jovens, por exemplo, devem ser submissos aos mais velhos.[7]As ovelhas devem submeter-se a seus pastores, pois eles velam por suas almas, “como quem há de prestar contas. Obedecei-lhes para que o façam com alegria e não gemendo, pois isso não vos seria útil”.[8]
Para resumir, espera-se de cada cristão autêntico, que “considere os outros superiores a si mesmo” [9] Sem sombra de dúvida, tal procedimento soa tão estranho hoje quanto nos dias da igreja primitiva. O fato é que as pessoas não conhecem o verdadeiro amor em toda sua plenitude.
O próprio Jesus, Deus encarnado, afirmou que não veio pra ser servido, mas para servir. [10]
Nada expressa melhor o amor do que o serviço. Quem ama, serve. Quem não serve, não ama.
Na passagem onde Paulo diz que devemos considerar os outros superiores a nós mesmos, ele nos aponta Cristo como padrão. Nas palavras do apóstolo, devemos ter e expressar “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus", “que sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou [11], tomando a forma de servo”.[12]
Ele não fez isso apenas pra nos dar uma lição de moral. Ele Se fez servo daqueles a quem amou. O preço do Pleroma é o Kenoma. Se quisermos ser cheios da Plenitude de Deus, devemos esvaziar-nos de nossa arrogância, egoísmo, amor-próprio, para sermos capazes de nos submeter uns aos outros em amor.
Não se trata de submeter-se aos caprichos do outro, ou a um autoritarismo desmedido e abusivo. Trata-se, antes de tudo, de submeter-se aos cuidados daquele que Deus estabeleceu como autoridade sobre nós.
Submeter-se também é posicionar-se “sob”, abaixo, como quem coloca as bases firmes sobre as quais a pessoa amada possa crescer segura, confiante, livre, desenvolvendo todas as suas potencialidades.
Submeter-se é servir de suporte, para alavancar o outro. É nesse contexto que Paulo diz que devemos suportar uns aos outros em amor. [13] “Suportar” aqui não significa tolerar, e sim, ser suporte. O amor é que nos motiva a isso, pois o amor tudo suporta.[14] Para que a pessoa amada cresça, devemos diminuir. “Convém que Ele cresça, e eu diminua”, disse João Batista, referindo-se a seu primo Jesus.[15]
A regra é simples: só podemos nos submeter de verdade a quem amamos.*
[1] Mateus 20:25-26
[2] Romanos 13:1-2a
[3] v.4
[4] v.6
[5] Conte, Hildo, Op.cit.,pp.171,172
[6] Efésios 5:21
[7] 1 Pedro 5:5
[8] Hebreus 13:17
[9] Filipenses 2:3
[10] Mateus 20:28
[11] “Esvaziou-se”, do grego “kenosis”. Só podemos experimentar o Pleroma (Plenitude), quando experimentamos o Kenoma (esvaziamento). Kenosis é um verbo que se origina do substantivo Kenoma.
[12] Filipenses 2:5-7a
[13] Efésios 4:2
[14] 1 Coríntios 13:7
[15] João 3:3
* Extraído do livro "Amor Radical", de autoria de Hermes C. Fernandes
Hermes Fernandes é um dos mentores da Santa Subversão Reinista no Genizah

Texto perfeito, obrigado por compartilhar, eu tento viver assim, peço a Deus que ensine a cada Cristão viver assim!!!!!
ResponderExcluirAmado Hermes, esse texto foi ditado pelo Esp.Santo...lindo, tocante, profundo. Bom seria, se todas...TODAS as igrejas vivessem essa forma de servir e de amar. Em Cristo e no amor Dele, Silvio.
ResponderExcluirMuito bem esclarecido Bispo, essa questão de "hierarquia" tem se tonado um problema pra alguns cristãos hoje, isso devido ao preconceito em relação ao termo! Infelismente pra muitos hierarquia é o mesmo que autoritarismo.
ResponderExcluirObrigado pelo esclarecimento.